segunda-feira, março 11, 2013

Guardian/BBC: EUA exportaram “guerra suja” na AL para o Iraque


Os quatros estão envolvidos na “guerra suja” que os EUA exportaram para o Iraque: os coronéis James Steele e James H. Coffman, na parte superior; abaixo, Donald Rumsfeld e o general David Patraeus, respectivamente

Guardian/BBC: Pentágono teve ligação com centros de tortura no Iraque

Mona Mahmood, Maggie O’Kane, Chavala Madlena and Teresa Smith, The Guardian

O Pentágono enviou um veterano da “guerra suja” na América Central para o Iraque, a fim de supervisionar o comando das unidades da polícia especial, que estabeleceu centros secretos de detenção e tortura para obter informações dos insurgentes. Essas unidades conduziram alguns dos piores atos de tortura durante a ocupação dos Estados Unidos e aceleraram o mergulho do país em uma guerra civil.

O coronel James Steele era um veterano das forças especiais de 58 anos quando foi indicado por Donald Rumsfeld (ex-secretário de Defesa) para ajudar a organizar os paramilitares, na tentativa de sufocar a insurreição sunita, como mostra uma investigação do Guardian e da BBC Árabe.

Depois que o Pentágono deixou de proibir o ingresso de milícias xiitas nas forças de segurança, aumentou muito, entre grupos xiitas violentos, como as Brigadas Badr, o recrutamento para o comando da polícia especial.

Um segundo consultor especial, o coronel reformado James H Coffman, trabalhou lado a lado com Steele nos centros de detenção montados com milhões de dólares de fundos dos Estados Unidos.

Coffman se reportava diretamente ao general David Patraeus, enviado ao Iraque em junho de 2004 para organizar e treinar as novas forças de segurança do país. Steele (ficou no Iraque de 2003 a 2005 e voltou em 2006), se reportava diretamente a Rumsfeld.

Pela primeira vez, alegações de testemunhas dos Estados Unidos e do Iraque, presentes no documentário do Guardian/BBC, implicam os consultores americanos em abusos de direitos humanos cometidos pelos comandos. Também é a primeira vez que Patraeus — forçado a entregar o cargo em novembro como diretor da CIA após um escândalo sexual — é relacionado a esses abusos por um consultor.

Coffman respondia a Petraeus e se descreveu em entrevista ao Stars and Stripes, jornal do exército americano, como “os olhos e os ouvidos” de Patraeus no Iraque.

“Eles atuavam lado a lado”, disse o general Muntadher al-Samari, que trabalhou durante um ano com Steele e Coffman, enquanto os comandos eram montados. “Eu nunca os vi separados nas 40 ou 50 vezes que os vi dentro dos centros de detenção. Eles sabiam tudo o que se passava ali… a tortura, os tipos mais horríveis de tortura.”

Outras reportagens do Guardian confirmaram, em maiores detalhes, como o sistema de interrogação funcionava.

“Todos os centros de detenção tinham seus próprios comitês de interrogação”, disse Samari, falando pela primeira vez, detalhadamente, sobre o papel dos Estados Unidos nas unidades interrogatórias.

“Cada unidade era formada por um oficial de inteligência e oito interrogadores. Esse comitê usaria qualquer forma de tortura para arrancar confissões dos detentos, como choques elétricos, pendurá-los de cabeça para baixo, arrancar as unhas e espancá-los nas partes mais sensíveis do corpo”.

Não existe prova de que Steele e Coffman torturaram pessoalmente os prisioneiros, apenas que estavam presentes em centros de detenção onde a tortura acontecia, além de envolvidos com o processamento de milhares de detentos.

A investigação do Guardian/BBC começou com a divulgação de documentos secretos do exército americano pelo WikiLeaks, que detalharam centenas de incidentes nos quais soldados americanos encontraram detentos torturados e centros de detenção administrados pelos comandos da polícia no Iraque. O soldado Bradley Manning, de 25 anos, pode ser condenado a até 20 anos de cadeia depois que confessou ter vazado os documentos.

Samari diz que a tortura era rotina nos centros de detenção controlados pelos comandos especiais: “Eu me lembro de um rapaz de 14 anos amarrado a uma pilastra da biblioteca; ele estava amarrado com as pernas acima da cabeça. O corpo dele estava azul por conta do impacto dos cabos usados para espancá-lo”.

Gilles Peress, um fotógrafo, cruzou com Steele quando fazia uma reportagem para o New York times, em Samara: “Nós estávamos em uma sala da biblioteca entrevistando Steele, eu olhava à volta, via sangue por toda parte”.

O repórter Peter Maass também esteve lá, fazendo reportagem com o Peress: “E enquanto essa entrevista com o jihadi saudita e Jim Steele transcorria na sala, havia gritos terríveis, alguém berrando: “Alá, Alá, Alá!” Mas não era como um êxtase religioso ou algo assim, aqueles eram gritos de dor e de terror”.

O padrão no Iraque fornece um paralelo sinistro com os bem documentados abusos de direitos humanos cometidos por esquadrões paramilitares financiados e treinados pelos Estados Unidos na América Central nos anos 80. Steele foi o chefe de uma equipe de especialistas dos Estados Unidos que deu consultoria e treinou as unidades das forças de segurança de El Salvador em táticas anti-guerrilha. Petraeus visitou El Salvador em 1986, enquanto Steele estava lá, e se tornou o principal defensor dos métodos de contra insurgência.

Steele não respondeu as perguntas do Guardian e da BBC Árabe sobre o papel dele em El Salvador ou no Iraque. No passado, ele negou qualquer envolvimento com a tortura e disse publicamente que é “contra abusos de direitos humanos”. Coffman não quis comentar.

Um oficial falando em nome de Petraeus disse: “Durante os anos em que esteve no Iraque, o general Petraeus foi informado a respeito das alegações de que forças iraquianas torturavam detentos. A cada incidente, ele passava imediatamente a informação para o comando militar dos Estados Unidos, para o embaixador americano em Bagdá… e para os líderes relevantes do Iraque”.

O Guardian descobriu que o envolvimento das unidades dos comandos especiais com a tortura entrou na consciência coletiva do Iraque quando algumas das vítimas foram exibidas a telespectadores do programa de TV chamado Terrorismo nas mãos da Justiça.

Os centros de detenção dos comandos especiais compraram câmeras de vídeo, financiadas pelos militares americanos, que foram usadas para filmar os detentos para o programa. Samara lembra-se de estar na casa do general Adnan Thabit – chefe dos comandos especiais – quando ele recebeu uma ligação do escritório do Petraeus, exigindo que parassem de mostrar homens torturados na TV.

“O tradutor especial do general Petraeus, Sadi Othman, ligou para passar uma mensagem do general Petraeus nos dizendo para não mostrar mais os presos na TV depois de terem sido torturados”, disse Samari. “Vinte minutos depois, recebemos uma chamada do Ministro do Interior do Iraque dizendo a mesma coisa: o general Petraeus não queria as vítimas da tortura no programa de TV.”

Othman, que agora vive em Nova York, confirmou que fez a chamada, em nome de Petraeus, para o chefe dos comandos especiais para pedir-lhe que parasse de mostrar os presos torturados. “Mas o general Petraeus não concorda com a tortura”, acrescentou. “Sugerir que ele apoia a tortura é besteira”.

Thabit descarta a ideia de que os americanos com os quais lidou não soubessem o que os comandos estavam fazendo.

“Até o momento em que fui embora, os americanos sabiam tudo o que eu fazia, o que se passava nos interrogatórios e conheciam os detentos. Até mesmo algumas informações secretas sobre os detentos vieram deles para nós. Portanto, eles estão mentindo”.

Pouco antes de Petraeus e Steele deixarem o Iraque, em setembro de 2005, Jabr al-Solagh foi indicado como novo Ministro do Interior. Sob Solagh, que era muito próximo da violenta milícia Brigadas Badr, as alegações de tortura e brutalidades cometidas pelos comandos dispararam. Também se acreditava amplamente que as unidades tinham envolvimento com os esquadrões da morte.

O Guardian descobriu que homens graúdos do Iraque, que trabalhavam com os Estados Unidos depois da invasão, alertaram Petraeus das consequências de indicar Solagh, mas as súplicas deles foram ignoradas.

O impacto de longo prazo de financiar e armar as forças paramilitares foi liberar uma milícia sectária mortal que aterrorizou a comunidade sunita e ajudou a germinar a guerra civil que matou dezenas de milhares de pessoas. No auge do conflito sectário, três mil corpos eram jogados nas ruas do Iraque todo mês.

Vietnã

A primeira experiência de guerra de Jim Steele aconteceu no Vietnã, onde unidades de combate dos Estados Unidos foram enviadas para combater o governo comunista do Vietnã do Norte e os vietcongs, entre 1965 e 1975. Nessa guerra, 58.000 americanos foram mortos. Um soco para a autoestima da nação, que levou a uma mudança no pensamento militar para os conflitos subsequentes.

El Salvador

Um golpe militar em 1979 mergulhou o menor país da América Central em uma guerra civil; os Estados Unidos financiaram e treinaram o governo de direita. De 1984 a 1986, Steele – um “especialista em contra insurgência” – foi chefe do US MilGroup das forças especiais americanas. Ele era consultor da frente de batalha do exército salvadorenho e ganhou reputação internacional por suas atividades de esquadrões da morte.

O professor Terry Karl, da Universidade Stanford, especialista na guerra civil de El Salvador, disse que o principal objetivo de Steele era transformar a chamada guerra total, o que significava a matança indiscriminada de milhares de civis, em uma abordagem mais “discriminada”. Uma de suas tarefas era dar mais ênfase à “inteligência humana” e ao interrogatório.

Nicarágua

Ele esteve envolvido no caso Irã-Contras, que transferiu o lucro da venda secreta de armas de oficiais superiores dos Estados Unidos aos Contras do Irã. Os Contras eram guerrilhas de direita que lutavam contra o governo esquerdista do sandinista Daniel Ortega, na Nicarágua. Steele coordenou as operações no aeroporto Llopango, em El Salvador, de onde o coronel Oliver North entregou, ilegalmente, armas e suprimentos aos Contras.

Iraque

Logo após a invasão americana do Iraque, em 2003, o agora reformado coronel James Seetle estava em Bagdá como um dos agentes mais importantes da Casa Branca. Encaminhava relatórios a Donald Rumsfeld e atuava como enviado especial do Secretário de Defesa dos Estados Unidos para o Comando Especial da Polícia do Iraque, onde supervisionava a coleta de informações. Selecionados majoritariamente das violentas milícias xiitas, os comandos ganharam reputação pela tortura e, mais tarde, por suas atividades de esquadrões da morte dirigidas à comunidade sunita.

Traduzido por Heloísa Villela

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