quarta-feira, abril 11, 2018

APESAR DO UFANISMO, ECONOMIA CONTINUA EMPACADA


(Por Laerte Fedrigo*)

     Em 2017, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1% no Brasil, o que levou especialistas a dizerem que o país tinha vencido a recessão, de tal sorte que dali para frente seria só crescimento.





       A realidade parece ser bem diferente. Dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PIS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o setor de serviços recuou 1,9% em janeiro de 2018, após alta de 1,0% em novembro e de 1,5% em dezembro de 2017. Segundo a Pesquisa Industrial Mensal, do mesmo instituto, a produção industrial caiu 2,4% em janeiro, após ter crescido nos quatro últimos meses de 2017.
     Ainda segundo dados do IBGE, a queda na atividade econômica industrial em janeiro foi generalizada. Dos 24 ramos pesquisados na indústria de transformação, 20 recuaram em janeiro de 2018, na comparação com dezembro de 2017. A principal influência negativa foi o ramo produtor de veículos automotores e de outros equipamentos de transportes, exatamente aquele que determinou o crescimento do PIB em meses anteriores.
      É importante observar que o “pibinho” de 2017 foi puxado pelo bom desempenho da agropecuária e pelo consumo das famílias, o que pode não se sustentar nos próximos meses. Análise bastante otimista do IPEA, expressa pela Visão Geral da Carta Conjuntura 37ª, projeta para 2018 uma queda de 2,5% do PIB agropecuário. O consumo das famílias, por seu turno, deverá ser influenciado negativamente pela aceleração da inflação e pelo aumento do desemprego, que tendem a reduzir a massa salarial em termos reais.

    É bom lembrar que a taxa de desemprego já voltou a crescer no Brasil, passando de 11,8% no último trimestre de 2017 para 12,6% no trimestre encerrado em fevereiro de 2018. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), foram 810 mil novos desempregados, que se somaram aos 12,31 milhões de brasileiros que já estavam nesta condição
em dezembro de 2017, totalizando 13,12 milhões de pessoas desocupados.

     Como se não bastasse, segundo levantamento do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), enquanto no andar de cima o lucro líquido dos três maiores bancos privados que atuam no território nacional subiu 20% em 2017, no andar de baixo o volume de brasileiros com contas em atraso e com restrições no CPF subiu 2,1%. De acordo com a pesquisa SPC/CNDL, o número de inadimplentes no Brasil passa de 60,7 milhões de pessoas, o que representa 40% da população adulta residente no País, graças aos juros escorchantes cobrados pelos bancos.
     Não poderia ser diferente, já que apesar da taxa básica de juros – a SELIC estar no patamar mínimo da série histórica, os juros bancários continuam elevadíssimos no Brasil. A título de exemplos, segundo dados do Banco Central do Brasil, a taxa média de juros passa de 55% ao ano nas chamadas operações livres de crédito (aquelas que excluem financiamentos imobiliários e do BNDES) e as taxas do cheque especial e do cartão de crédito rotativo passam de 320% ao ano. Isso acontece por conta da concentração bancária, que faz com que se tenha aqui o maior spread do mundo.

     Do setor externo, pouco pode ser esperado. A Carta Conjuntura 37ª do IPEA projeta para 2018 um aumento de 7,8% das importações, contra 4,3% das exportações. O mesmo pode ser dito da política fiscal, já que a PEC do Teto congelou os gastos públicos por 20 anos. Se o gasto público se mantiver estático e o consumo das famílias e do resto do mundo diminuir, a tendência será a queda dos investimentos privados, o que retroalimentará o ciclo vicioso da atividade econômica.
       O que querem, portanto, os analistas com tamanho ufanismo em relação ao futuro da economia brasileira? O que sei é que sou assombrado por certos humanos.
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* Mestre em economia pela PUC/SP.

terça-feira, janeiro 16, 2018

O anúncio do IPCA 2017: um ritual macabro do governo e das elites

(Por Laerte Fedrigo*)

O IPCA de 2017 fechou em 2,95%. O Governo Temer e as elites festejaram o fato como se o Brasil tivesse sido campeão mundial de futebol, devolvendo os 7 x 1 para a Alemanha. Logicamente, queremos os preços sob controle, já que a inflação tem o efeito perverso de transferir recursos daqueles que têm renda fixa, os trabalhadores e aposentados, para os que têm renda variável, os empresários. Mas o fato é que aumentaram o gás, o etanol, a gasolina e o diesel, a taxa de água e esgoto, a energia elétrica e o transporte, entre outros preços. Para piorar, a economia continua patinando no atoleiro e sem qualquer direção.

A teoria econômica apresenta algumas causas para a inflação. Uma delas é o choque de oferta. Neste caso, a inflação ocorre por conta do aumento nos preços dos insumos produtivos, como energia e transportes. É a chamada inflação de custos. À medida que os preços desses insumos aumentam, os custos das empresas também aumentam. Como as empresas possuem recursos limitados, produzem menos, provocando escassez de produtos no mercado, o que força a elevação dos preços. Em outras palavras, as pessoas vão ao mercado comprar e como a oferta de produtos está baixa, aceitam pagar mais pelos produtos ofertados pelas empresas.

É indiscutível que está havendo uma aceleração nos preços dos insumos produtivos no Brasil. A título de exemplo, os dados indicam que, em 2017, a taxa de água e esgoto subiu 10,52% e a gasolina 10,32%. Só em dezembro, o etanol subiu 4,34% e as passagens aéreas 22,4%. A lógica, portanto, seria de aceleração generalizada dos preços e não o inverso. Por que, apesar disso, o IPCA desacelerou? Segundo o IBGE, o governo e os analistas do mercado, isso foi provocado pelo comportamento dos preços dos alimentos que teriam ficado mais baratos em 2017, por conta da safra agrícola recorde.

Que  a  safra  agrícola foi  recorde  em  2017 não restam dúvidas, mas que  ela  tenha  sido  a causa  da  desaceleração da  inflação  parece pouco  provável.  Os dados  da  série histórica da figura a seguir mostram  que nunca existiu  elação  entre  o aumento da produção agrícola e a desaceleração  do  IPCA. Pelo  contrário:  o  que eles  indicam  é que  no período, a produção agrícola e o IPCA variaram sempre na mesma  direção;  ou seja,  quando  a produção agrícola cresceu,  o  IPCA também  cresceu  e  vice-versa.

Figura 1 – Variação % da produção agrícola e do IPCA.
Fonte: LSPA/IGBE
Para compreendermos essa desaceleração dos preços precisamos conhecer outra causa da inflação, o choque de demanda. Deste ponto de vista, a aceleração dos preços seria provocada pelo aumento do consumo, em decorrência de políticas econômicas expansionistas, como o aumento dos investimentos do governo, o estímulo ao crédito e os programas redistributivos de renda. À medida que geram empregos, essas políticas tenderiam a elevar a capacidade de consumo das famílias, o que exerceria pressão ascendente dos preços, especialmente naquela situação em que a economia se aproxima do pleno emprego.

Ora, a economia brasileira está em frangalhos, uma vez que o Governo Temer desenvolve uma política econômica restritiva, pautada pelo corte nos investimentos e nos gastos sociais, em contraposição à uma política monetária que mantém os juros em patamar estratosférico, dificultando o crédito e facilitando a transferência de renda para uma minoria rentista. A consequência dessa opção governamental é o desemprego em alta, na ordem de 12% da PEA, e a queda livre do emprego com carteira assinada.

Este desastre parece explicar verdadeiramente a tão badalada desaceleração do IPCA. Ao reduzir o poder de compra das famílias, o desemprego e a precarização do trabalho provocam o choque de demanda às avessas. Desprovidas de recursos, as famílias gastam menos, de tal sorte que os produtores se veem forçados a reduzirem os preços, mesmo num contexto de choque de oferta. Em lugar de atender a demanda dos que ascenderam socialmente na última década, estimulando a ampliação da capacidade produtiva da economia, o Governo Temer e as elites optaram pelo oposto, às custas da sangria dos direitos sociais e trabalhistas.

Mas a comemoração esconde outra façanha. Considerando a queda na taxa de juros que remunera a dívida pública (a SELIC), era de se esperar que os credores fugissem dos títulos do governo. Não obstante, como o que os investidores buscam são ganhos reais, a desaceleração da inflação acabou funcionando com um amortecedor para os credores do governo. Em 2015 a SELIC fechou o ano em 14,25% e o IPCA em 10,67%, o que resultou numa taxa de juros real de 3,58%. Em 2017, a SELIC caiu para 7,5%, mas como o IPCA despencou para 2,95%, a taxa de juros real subiu para 4,55%. Um prato cheio para os rentistas e especuladores.

Os sorrisos do Governo Temer e das elites refletem, portanto, a perversidade; o gozo, ou pulsão de morte, na formulação psicanalítica. Uma espécie de ritual macabro, onde é comemorada, não a melhora da economia, mas a desgraça dos desvalidos. Só Lacan para explicar. Ou não!
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* Mestre em Economia pela PUC/SP.

sexta-feira, outubro 27, 2017

Crônicas Econômicas - O Economicismo



O Economicismo

Evaristo Almeida

Uma crítica bastante contundente do Henri Lefebvre contra as ciências parcelares é a forma como elas são usadas ideologicamente para encobrir outros interesses, ele as chama de forma pejorativa de economicismo, filosofismo, sociolisgmo, entre outros.

Isso me animou a escrever sobre o economicismo, que é a economia na sua forma mais vulgar; antes tínhamos a economia política, que é a economia em que a contradição das classes sociais está presente, assim também como toda formação histórica que explica o desenvolvimento e o subdesenvolvimento de um país.

O economicista (e não economista, não confundam) se forma nas universidades mais famosas dos Estados Unidos, ou em simulacros no Brasil, que as copiam e se orgulham disso. O economista John Kenneth Galbraith, escreveu no livro “A Era das Incertezas” que ele tinha preocupação no que essas instituições ensinavam, principalmente porque a maioria dos alunos eram de países do terceiro mundo e cuja aplicabilidade não era possível nem nos Estados Unidos.

Pelo visto, lá também eles tentaram aplicar o economicismo, pois concentraram a renda no 1% mais rico da população com aumento da desigualdade da renda e transformaram os Esteites num país especializado em produzir papéis, pela captura do capital financeiro que abdica do movimento mostrado por Marx da acumulação capitalista de D-M-D’, em que dinheiro ou capital (D) é transformado em mercadoria (M) e no final esse dinheiro, através do trabalho, é valorizado com mais-valia (D’). Optaram pelo circuito financeiro D-D’, sem a intermediação da produção de mercadorias, ou seja, do uso do trabalho humano e só produz crises financeiras, que vem se repetindo desde os anos 1970 e a maior de 2008, quebrou tanto os Estados Unidos quanto a Europa.

O resultado dessas estripulias todas foi o aumento da pobreza e da desigualdade social nesses países.

Bem, mas os cabeças de planilha (como Nassif apelidou os economicistas) tupiniquins são lobotomizados e seguem a cartilha decorada nos Estados Unidos de forma canina, mesmo porque são ideologicamente alinhados com o neoliberalismo que vê o mercado como unidade suprema acima do povo; pregam redução do gasto social e dos direitos trabalhistas e previdenciários, alta taxa de desemprego para que os salários não ameacem a taxa de lucros, passar todos os bens coletivos para controle privado no processo que no passado ficou conhecido como privataria (as empresas, geralmente estrangeiras, receptam esses ativos a preços vis, como o pré-sal hoje, como as gangues fazem com produtos alheios) e estão a serviço dos interesses estrangeiros, em prejuízo do povo brasileiro (fazem parte da subelite, que são aqueles que estão comprometidos com o projeto de nação dos países centrais).

Os representantes do economicismo estão na mídia, da qual se dizem comentaristas de economia, mas a realidade mostrou que defendem unicamente a reprodução do capital em detrimento da dignidade humana e até nutrem certo desprezo pelo nosso povo, falam do mercado de capitais (bolsa de valor), como se fosse economia e trabalharam diuturnamente para o golpe de estado que colocou uma quadrilha no governo do país com o terrorismo econômico que praticaram.

Eles estão na televisão, nos jornais, nos rádios, mas também na academia, ensinando teorias para os alunos que perpetuam a condição da desigualdade social no Brasil e a condenação ao subdesenvolvimento.

Abdicaram de construir uma nação soberana com o povo, em que a condição de vida boa para todos seja possível.

Os representantes do economicismo defendem juros altos, mesmo não tendo nada na teoria econômica que justifique a transferência pelo governo do pagamento de R$ 500 bilhões de juros anualmente ou a cobrança de 400% pela banca privada, num processo de agiotagem consentida e que deveria ser combatida.

Eles são parte do processo de locupletação da suposta elite brasileira (subelite), que usam o argumentos dos juros para expropriar recursos que deveriam ir para a educação, saúde, mobilidade urbana, segurança, pagamento de melhores salários aos professores, entre outros gastos socialmente benéficos para a economia, mas vão para o 1% mais rico do país.

E esse dinheiro vem de impostos regressivos, coletados principalmente entre os mais pobres que pagam muito mais, proporcionalmente a renda, do que os mais ricos.

Além de surrupiar via juros, parte dos recursos do Estado, a suposta elite (subelite) não gosta de pagar impostos, pois sonegam anualmente cerca de US$280 bilhões, segundo dados de 2013, divulgados por Tax Justice Network (rede de justiça fiscal, em tradução livre, organização internacional independente com base em Londres, que analisa e divulga dados sobre movimentação de impostos e paraísos fiscais), dados de 2010.
E tudo isso é escondido da população pelos economicistas, através dos seus bate-estacas na mídia e na academia, que usam a questão fiscal (falácia fiscal) como argumento para acabar com a aposentadoria, gastos sociais e redução dos direitos trabalhistas.

E os partidários do economicismo, ficam em êxtase quando um prefeito, como o de São Paulo, legítimo representante da suposta elite (subelite) diz que vai distribuir restos de comida fossilizados para a população de rua e para os alunos da rede municipal (imagino o que Waldick Soriano e Falcão diriam a respeito dessa ração) e ameaçou que em breve o país inteiro será vítima dessa infâmia.

Uma pergunta, será que ministério público que ficou indignado com uma ciclovia na Avenida Paulista na gestão passada, vai questionar o gestor, o empresário que não é político, que está prefeito de São Paulo? Ou hibernará durante os quatro longos anos dessa “jestão”?

Ou uma ciclovia deve provocar mais indignação que distribuição de restos de comida à população?

E a televisão, os jornais, rádios, que atacavam diuturnamente as ciclovias, que reduziu a mortalidade de ciclistas na capital, vão se manifestar contra a distribuição de ração à população?

Ou o papel da mídia na cidade de São Paulo é agir politicamente em torno de um projeto de dominação social, de forma parcial, tratando o que é bom como a ciclovia como ruim e o que é um acinte à dignidade humana de forma acalorada?

É o processo invertido, em que o bom é ruim e o ruim é bom, de acordo com os interesses políticos mais escusos da suposta elite (subelite) brasileira?

Ou acham que o povo é lixo e merece comer o que nem a cão deveria ser distribuído?

Alguém vai investigar a empresa que está por trás disso tudo?

Será que já ouviram falar que comida é arroz, feijão, carne, frutas, saladas, que é o que deveria ser distribuído?

Ou não consideram os pobres e os alunos das escolas públicas como gente?

A farinata seria distribuída em escolas como o Dante Alighieri, Bandeirantes ou nessas escolas bilíngües, as high schools?

Nesse caso, provocaria uma forte reação da alta classe média paulistana, que está se lixando quando são estudantes da periferia?

Ou os alunos do Campo Limpo, Jardim Paraná, Itaquera, Jardim Ângela, São Mateus, entre outros, são diferentes deles?

A condição humana não é a mesma?

Bem, voltemos ao economicismo que gosta muito quando um governo como Alckmin, que assim comoTemer (que não foi derrubado ainda por representar interesses que vão contra o bem-estar do povo brasileiro e está a serviço de interesses estrangeiros) enviou o PL 920/2017 à Alesp para cortar gastos sociais, correção salarial e evolução na carreira dos funcionários públicos, para pagamento de juros da dívida pública.

O Alckmin sabe que a condição da saúde, da educação, da mobilidade e da segurança é precária, mas de novo os interesses do mercado em detrimento da população é o que importa?

O economicismo está atrelado aos interesses da suposta elite brasileira (subelite), cujas ideias vieram nas caravelas de Cabral, que é explorar essas terras e o seu povo e depois se mandarem, antes iam para Lisboa, agora vão para Miami.

Para finalizar essa crônica o economicismo é um misto de picaretagem econômica e alienação política, feita com o uso da mídia, a serviço da espoliação do povo brasileiro.

domingo, setembro 17, 2017

O BRASIL ESTÁ A VENDA. O PREÇO, A TEMER!


Por Laerte Fedrigo*

Está em curso no Brasil um novo e famigerado processo de privatizações, motivado pela suposta crise fiscal do Estado e pela tese (velada) de que o mercado é mais eficiente que o setor público. Privatizar traria duplo benefício: de um lado resolveria o problema do déficit; de outro, melhoraria os serviços demandados pela sociedade. Grande falácia.

Em qualquer lugar do mundo o mercado só se desenvolveu graças à forte intervenção do Estado, a exemplo da Alemanha, dos EUA, da Coréia do Sul e de Singapura, para ficar nuns poucos países. Nem Adam Smith, o pai do liberalismo, chegaria a tamanha heresia, já que defendia que, além da justiça e da segurança, o Estado deveria realizar obras públicas que favorecessem o desempenho do mercado. Ademais, qual seria a medida da eficiência do setor de telecomunicações ou dos planos de saúde, senão os preços exorbitantes?

No caso do Brasil, muitos são os mitos nesta seara. Até 1940 não passava de uma economia primário-exportadora, pautada pela monocultura. De lá para cá, graças à atuação do Estado, a começar pelo Projeto Nacionalista de Vargas, o Brasil se tornou uma das mais importantes nações industrializadas do planeta. Num período de 25 anos copiamos aquilo que o mundo levou pelo menos duzentos para construir: a primeira e a segunda revolução industrial. Nos últimos anos, as políticas públicas e macroeconômicas não só aproximaram o Brasil do pleno emprego, como corroboraram para tirar milhões de brasileiros e brasileiras da pobreza e da pobreza extrema. Não devemos nada ao mercado!

Na década de 1990, para justificar a implantação do Consenso de Washington, Collor de Mello argumentou que os governos gastavam demasiadamente, sendo os responsáveis pela crise financeira do Estado. A exemplo do mito da eficiência do mercado, este é outro que se renova com muita frequência e facilidade. Exageros existem, como os elevados salários, regalias e aposentadorias de certos juízes, entre outras distorções, mas a crise financeira do Estado brasileiro carrega outros componentes.

Vamos nos ater apenas a um fato. Aproveitando-se de um contexto internacional marcado por excesso de liquidez e baixas taxas de juros, o regime militar implementou nos anos 60 e 70 uma política econômica expansionista, estimulando empresas privadas a empréstimos externos a taxas flutuantes de juros. Com a mudança na política monetária do Federal Reserv, no final da década de 1970, que resultou em arrocho monetário nos EUA, os juros internacionais subiram astronomicamente e agentes privados transferiram suas dívidas em dólares para o Banco Central do Brasil, naquilo que ficou conhecido como estatização da dívida externa brasileira. Agora o devedor, para honrar os compromissos externos herdados, o Governo se viu obrigado a captar dólares, oferecendo títulos em troca, o que fez crescer a dívida interna do setor público e o seu custo de carregamento. Neste caso, a “eficiência” do mercado foi a criminosa transferência para o Estado, e para o povo brasileiro, do ônus do seu processo de financiamento da acumulação de capital.

A realidade mostra também que não há qualquer garantia de que o processo de privatizações contribua para o ajuste fiscal do Estado. Neste sentido, os dados da década de 1990 indicam que a dívida pública líquida em porcentagem do PIB cresceu mais de 100%, em que pese as cerca de 100 empresas estatais transferidas para o setor privado. E continuou crescendo até 2003, quando chegou a 57% do PIB, contra pouco mais de 15% em 1991.

Outro mito é a alegação segundo a qual os governos petistas teriam perdido o controle sobre a questão fiscal. Na verdade, a dívida líquida do setor público em percentagem do PIB caiu de 57 em 2003 para 31,7 em março de 2015. Em 2014, a dívida pública bruta, na casa de 59% do PIB, colocava o Brasil na 49ª. posição no ranking mundial dos governos endividados, enquanto o Reino Unido ocupava a 17ª. posição com 89%, a França a 15ª. com 95%, os EUA a 11ª. com 102%, a Itália a 5ª. com 132% e o Japão a primeira posição, com uma dívida pública bruta da ordem de 230% do PIB. O que diriam os economistas de Harvard sobre a dívida pública brasileira?

Desde que Temer ocupou a presidência da república, a dívida pública não parou de crescer, tendo chegado a 49% do PIB, em termos líquidos, o que tem sido usado como argumento em prol da reforma da previdência e de cortes nos gastos sociais. Ao argumento, agora se soma a proposta de privatizações, um pacote de maldades que inclui 14 aeroportos, 11 blocos de linhas de transmissão de energia, 15 terminais portuários, rodovias e empresas públicas, inclusive a casa da moeda, sem falar no fatiamento da PETROBRAS. O Brasil está à venda. O preço, a Temer! Quem comprar tudo pela quantia de R$ 40 bilhões (só a ELETROBRAS tem valor estimado de R$ 400 bilhões) poderá receber a RENCA de brinde. Como diria Raul Tá na hora agora é free, vamo embora. Dar lugar pros gringo entrar.
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* Mestre em Economia Política pela PUC/SP.

terça-feira, julho 04, 2017

A falácia liberal e o colapso do planeta



Laerte Fedrigo*

Adam Smith, que é considerado o pai da economia, preconizava que a mão oculta do mercado asseguraria o desenvolvimento em nível de pleno emprego das forças produtivas. Esse brilhante economista escocês acreditava que todo indivíduo reuniria as melhores condições para julgar em qual atividade aplicar seu capital, de modo que constantemente se dedicaria a descobrir a melhor aplicação para o seu capital, com vista ao seu próprio interesse. Com efeito, ao preferir a aplicação que lhe acarretaria as melhores vantagens, o indivíduo seria conduzido pela mão oculta do mercado a promover o interesse de toda a sociedade.

Na esteira de Adam Smith, David Ricardo, importante economista inglês, defendia com fervor um modelo de desenvolvimento calcado na Teoria das Vantagens Comparativas. Segundo esse modelo, amplamente difundido pelo centro do capitalismo, cada país deveria se especializar na produção em setores que possuíssem vantagens comparativas, trocando os excedentes produzidos. Além de estimular o uso mais eficiente das potencialidades naturais e a distribuição mais eficiente do trabalho, essa especialização uniria a sociedade global por laços de interesse e intercâmbio, estando universalmente associada ao bem comum.

Não obstante o brilhantismo desses dois economistas, o tempo mostrou as limitações desses ideais liberais. Graças aos impulsos individualistas, a economia avançou de forma triunfante, mas o desenvolvimento se mostrou utópico, já que o atraso tecnológico e a desigualdade social tornaram-se as marcas registradas, sobretudo na periferia do modo capitalista de produção.

Para o brasileiro Celso Furtado e o argentino Raul Prebisch, economistas da CEPAL, o modelo de desenvolvimento preconizado por Smith e Ricardo inseriu os países da periferia na divisão internacional do trabalho como economias primário-exportadoras. Como as economias periféricas eram orientadas apenas para o mercado externo, ao invés de promover o desenvolvimento econômico, as riquezas ali produzidas foram canalizadas para o centro do capitalismo, retardando o processo de industrialização.

Além da industrialização tardia, o modelo de desenvolvimento internacional baseado na Teoria das Vantagens Comparativas legou à periferia a convivência com o subdesenvolvimento. Para Furtado e Prebisch, ao contrário do que ocorreu no centro do capitalismo, onde o processo de industrialização transformou as estruturas sociais, permitindo a homogeneização social, na periferia, a assimilação de novas técnicas e o aumento da produtividade agravaram a concentração de renda, uma vez que os benefícios decorrentes da industrialização foram desfrutados apenas pela parcela que exerceu o controle direto sobre os segmentos afetados pelos ganhos de produtividade. Ademais, ao se especializar na produção primário-exportadora, acrescentam, o acesso da periferia ao progresso técnico se deu inicialmente pela via da importação de bens de consumo, chegando somente posteriormente à produção. Além de impedir a pressão assalariada por melhorias nas condições de vida dos trabalhadores, esse processo engendrou nas elites um padrão de consumo típico das economias centrais, de sorte que o processo de industrialização consolidou estruturas tradicionais de dominação, favorecendo a industrialização pela via conservadora, configurando a marginalização social.

Na segunda metade do século 20 houve uma mudança importante no processo de acumulação capitalista, quando o Estado passou a regular a economia por meio das políticas econômicas. Essa transformação do Estado foi responsável pelo boom que se estendeu do imediato pós-guerra ao início da década de 1970, pela redução do desemprego e pela melhora considerável nas condições de vida da população em geral, especialmente nos países centrais. Mesmo na periferia, essa ação coordenada pelo Estado provocou uma redução da desigualdade de riqueza, com efeitos positivos sobre os índices de pobreza extrema e moderada. Ainda assim, segundo dados da OIT, 36% da população dos países periféricos continua nesta situação.

Para piorar, como nos alertou Thomas Piketty em 2013, nos últimos anos o mundo apontou para um crescimento da desigualdade de riqueza, contrariando a tendência de décadas anteriores. Segundo dados do banco Credit Suisse, em 2010 o 1% mais rico da população adulta do planeta possuía 43% da riqueza mundial; em 2015 já era 50%. Enquanto isso, no período, a apropriação da riqueza dos 50% mais pobres caiu dos míseros 2% para menos de 1%.

Resta considerar a questão do aquecimento global. Desde a revolução industrial há uma elevação da temperatura média do planeta, provocada pela emissão de gases do efeito estufa, a exemplo do gás carbônico e do gás metano. É indiscutível, porém, que esse processo foi acelerado nos últimos anos. Os dados indicam que o século XX foi o período mais quente da história, com o aumento de 0,7ºC na temperatura média do planeta. Num cenário otimista, as previsões para o século XXI são de que a temperatura aumentará 1ºC, podendo chegar a 4ºC num cenário pessimista.

É importante lembrar que nas últimas décadas o modo capitalista de produção lançou mão de um conceito desenvolvido pelo economista austríaco Joseph Alois Schumpeter, “a destruição criativa”. Assim, a cada instante um modelo novo é colocado no mercado, forçando a sociedade ao consumismo desenfreado por meio do marketing agressivo, já que para além da publicidade e da propaganda, o marketing foi incorporado à estrutura física do mercado, a exemplo do shopping center, cuja entrada lembra o portal do paraíso. Assim, quem se dirige ao mercado vai ao encontro com Deus. Como não há racionalidade nessa relação, consome por impulso.

As consequências desse processo são catastróficas. Com o aumento da temperatura do planeta há o derretimento das calotas polares e com isso a elevação do nível dos oceanos, que por sua vez provoca vários desastres naturais, causando a redução da biodiversidade. As alterações climáticas exercem impacto também sobre a agricultura, já que o aumento da temperatura média do planeta ameaça o cultivo de várias plantas, que combinado com o excesso de chuvas em alguns períodos e longas estiagens em outros, pode agravar o problema da fome, já que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) prevê uma redução de cerca de um terço da quantidade de comida disponível até 2050.

Eric Hobsbawm, nobre pensador egípcio, dizia que se quiséssemos ter um futura reconhecível, não poderia ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Por esse caminho iríamos fracassar e o preço do fracasso seria a escuridão. Uma coisa é certa, correm turvas as águas deste rio,talvez já com suas margens indevidamente habitadas, talvez já sem oxigênio, talvez já sem peixes. Se nada for feito para inverter esta escalada destrutiva, países e populações pobres e vulneráveis serão os mais afetados. A história dirá!
*Mestre em Economia Política pela PUC-SP.

segunda-feira, junho 12, 2017

Como não temer um governo de trevas?



(Laerte Fedrigo)*

Antes de se consolidar o golpe de estado no Brasil, Michel Temer anunciou a Ponte para o Futuro, que na nossa concepção estava mais para uma pinguela para o passado, uma vez que significava superávit primário para o pagamento de juros, elevação da idade mínima para aposentadoria, mudança das regras trabalhistas, fim da estabilidade no serviço público e cortes nos gastos sociais. Em síntese, arrocho sobre os trabalhadores e redução do tamanho e do papel Estado, em nome e a favor do deus mercado. O retrocesso se configurou na formação ultraconservadora do primeiro ministério.

No campo ético-moral, os partidos da oposição e da grande mídia, articulados com interesses internacionais, usando de um discurso falso moralista, anticorrupção, difamam símbolos nacionais, como a PETROBRAS, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e os Correios, estimulando a transferência do patrimônio público para a iniciativa privada. As delações e as malas de dinheiro ilustram quão caro tem custado o silêncio de uns e o apoio de outros a um projeto nefasto para o Brasil e para o seu povo, especialmente para a classe trabalhadora. Enganou-se quem vestiu a camisa verde amarela e foi às ruas achando que estava em curso uma cruzada contra a corrupção.

Recentemente o Governo Temer anunciou o fim da recessão. Um discurso falacioso, já que os dados do IBGE indicam que o PIB do primeiro trimestre de 2017 caiu mais uma vez, totalizando 12 trimestres consecutivos de variação negativa. No Brasil real, a tendência é de aprofundamento da recessão, já que a locomotiva da economia se desloca à marcha ré.

A indústria registrou queda de 1,1%, puxada pelo setor da construção, que caiu 6,3%. O setor de serviços registrou queda de 1,7%, puxada pelo comércio, que despencou 2,5%, seguido pelo setor de transporte, armazenagem e correio, cuja queda foi de 2,2%. Na indústria, apenas dois segmentos contribuíram positivamente para o desempenho do PIB: a indústria extrativa mineral e a indústria de eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana. No setor de serviços, nenhum segmento cumpriu essa façanha. Por essa ótica, a agropecuária foi o único macro setor que contribuiu positivamente para a evolução do PIB, mas não é preciso muito esforço para entender as suas razões, já que, segundo o INPE, em 2016 só na chamada Amazônia Legal houve um aumento de 29% de corte raso, totalizando 7.989 km2 de devastação.

Pela ótica do consumo, os investimentos em Formação Bruta de Capital Fixo, o chamado consumo das empresas, registrou queda de 3,7% no primeiro trimestre de 2017. É o décimo segundo trimestre consecutivo de queda neste indicador. O consumo das famílias, que participa com mais de 60% da composição do PIB no Brasil, caiu 1,9%, pelo nono trimestre consecutivo. O consumo do governo, por sua vez, que poderia reverter o ciclo vicioso da economia brasileira, também caiu, este pela décima vez consecutiva: - 1,3%. No que diz respeito ao consumo do resto do mundo, enquanto as exportações cresceram 1,9%, as importações cresceram 9,8%.

O resultado dessa verdadeira depressão não poderia ser outro senão o aumento das taxas de desemprego. Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, só no primeiro trimestre de 2017 foram quase dois milhões de novos desempregados (1,8), de sorte que a taxa de desemprego atingiu 13,7% da PEA. Ao todo, já são 14,2 milhões de desempregados. Considerando que em 2014 eram 6,5 milhões, o aumento no número de desempregados foi da ordem 118% no período. Deveras assustador.

Como se não bastasse, os dados da pesquisa industrial mensal do IBGE indicaram queda na produção industrial em quase todas as categorias econômicas no mês de abril. A produção de bens intermediários, por exemplo, só não caiu no que diz respeito a componentes para a indústria de alimentos e para a indústria de produtos derivados do petróleo e biocombustíveis. Nos demais segmentos, a queda variou de 2,48% (indústrias extrativas) a 15,44% (indústria de veículos automotores, reboques e carrocerias). A produção de bens de capital caiu entre 13% (indústria de máquinas e equipamentos) e 20% (equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos). A produção de bens de consumo duráveis também caiu em todas as grandes atividades, variando de 12,41% na indústria de móveis a 24,6% nas demais atividades. Na indústria de veículos automotores, reboques e carrocerias houve queda de 21,74%. A produção de bens de consumo semiduráveis e não duráveis também registrou queda de 11,38% para produtos têxteis, 15,42% para produtos alimentícios e 17,46% para bebidas.

Na trajetória de retrocessos, a política perdeu credibilidade, a economia despencou e o desemprego cresceu, acompanhado por conflitos no campo, com todo tipo de vilipêndio à vida humana, especialmente contra as populações originárias do Brasil. A situação é grave, mas o pior está por vir, se chanceladas as reformas em curso. O tempo de meias medidas acabou. A hora é de luta em defesa de direitos arduamente conquistados pela classe trabalhadora.

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* Laerte Fedrigo é Mestre em Economia Política pela PUC/SP.

domingo, maio 21, 2017

Crônica de um dia pouco inusitado


Por Laerte Fedrigo

E agora José, Lúcia, Carmem?
Temer avalizou
Cunha omitiu
Dilma avisou
JBS vazou
Loures viajou
Doria junto levou
O Santo Sumiu
O dólar subiu
A casa caiu
O Brasil afundou

E agora José, Mendes, Gilmar?
O STF sabia
O PIG sabia
Loja Marisa sabia
Banqueiro sabia
Moro sabia
Youssef soltou
Dinheiro lavou
Não fui eu, nem você
Nem Lula, nem o PT
Mas, os vizinhos do FHC

E agora José, Zumbi, MST?
O povo quer saber
Quem pagou para esconder?
Foi tu ou foi você?
O povo não é bobo
Fora Temer, Maia,
Rede globo
A Cobra vai fumar
As ruas ocupar
A luta é do povo
Diretas já!

E agora José, Inácio, Luiz?
Recado mandou dar
Elite não sabe governar
Deixa o metalúrgico trabalhar
O PED passou
O Congresso em curso está
Partido passado a limpo,
Estrela a brilhar
A esperança renasce do povo
Com o homem de novo está
2018, 2017, agora; #Lula Lá!
E agora José, Cazuza, Gonzaguinha, Jackson do Pandeiro?
Brasil puteiro,
Lavagem de dinheiro
Não se faça de otário
Quando o diabo não vem,
Compra o Judiciário
2017 centenário,
Greve Geral, Revolução
A resposta das crianças,
Educação, libertação
Vida, cidadão: uma nação!

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* Laerte Fedrigo é Mestre em Economia Política pela PUC/SP.